Para que serve um Hackathon? Pode servir a muitos propósitos.

Pode ser para ajudar nos esforços de contratação. Melhorar a imagem de sua marca perante determinados públicos. Ajudar a mudar a cultura da empresa. Se relacionar com estudantes, developers ou startups.

Para a maioria dos possíveis objetivos que serve um hackathon, não faz sentido se preocupar com IP.

Porém, algumas empresas realizam hackathons para fazer inovação aberta, ou seja, inovação vinda de fora.

Neste caso, faz todo sentido se preocupar com IP.

Acontece que se preocupar com IP não significa que você deva colocar no regulamento que é dono de tudo o que for criado no evento, oferecendo apenas o padrão de bonificação atual. Não deveria porque não é certo. Ponto. Este deveria ser o único motivo necessário e finalizar o texto aqui. Sua grande corporação não deveria abusar dos pequenos.

Mas como este argumento nem sempre convence, resolvi escrever mais alguns motivos pelo o qual você não deveria ser leonino em relação a IP no seu hackathon.

MOTIVO 2: as chances de vir algo bom são pequenas.

É preciso alinhar expectativas. Para este fim, o hackathon é feito para não dar certo.

Em um hackathon se junta um monte de pessoas que nunca se viram na vida. Pessoas que formam grupos que muitas vezes não se complementam. Estes grupos precisam aprender durante o evento sobre sua empresa, produtos, serviços, mercado, legislação, clientes etc. E descobrir um problema para atuar. Criar uma solução. Prototipar esta solução. Montar uma apresentação. Fazer um pitch de elevador para defender tudo isso.

Lembrando que esse grupo de jovens muitas vezes não tem a menor experiência na maioria (para não dizer todos) dos pontos acima.

E, tudo isso sendo feito em um punhado de horas sem dormir direito.

É por isso que a maioria dos hackathons gera apenas um monte de ideias nada originais e um punhado de código que não vale nada. Eu já fui jurado em muitos hackathons onde a mesma ideia foi usada por vários dos grupos presentes. Uma vez fui jurado em um que os 3 finalistas tinham a mesma ideia.

MOTIVO 3: os bons hackers e devs não topam este tipo de coisa.

Se, atrelado a isso você ainda coloca no seu regulamento que tudo o que for criado será seu, você estará atraindo apenas os mais juniores que estão preocupadas apenas em experimentar um hackathon.

Então, não se trata apenas de justiça, se trata também de não minar seus objetivos.

MOTIVO 4: é legalmente frágil

Legalmente falando, você não está totalmente protegido. Você pode citar a lei do software, você pode citar o regulamento, você pode citar que é cliente do escritório de advocacia mais famoso do Brasil, mas vamos aos fatos:

Os participantes não são seus funcionários, usam seus próprios laptops, a maioria deles não será pago (premiado) pela ideia pois apenas 1, 2 ou 3 times irão ganhar algo (e pela minha experiência, muitas vezes as melhores ideias e melhores códigos não ganharam a competição pois fazem um péssimo pitch de elevador). E vamos falar a real, o pagamento é desproporcional ao benefício que você almeja.

Você pode argumentar que o regulamento vale como contrato. Óbvio. Mas qualquer coisa pode ser questionada na justiça, inclusive o contrato. Imagino que seja por este motivo que muito contrato tem uma cláusula dizendo que mesmo que qualquer cláusula seja derrubada, o resto do contrato continua valendo. E Hachathon é um “fenômeno” novo. Inovação aberta também. Não tem consenso sobre isso, muito menos jurisprudência.

MOTIVO 5: você está indo contra a maré.

Os hackathons de maior sucesso (lá fora e aqui no Brasil) não fazem isso. IBM, FIESP, Hack in Sampa, ONU e muitos deixam claro em seus regulamentos que a IP é de quem cria.

Muitas empresas estão fazendo hackathons com cláusulas de IP radicais apenas porque compram o produto pronto de empresas que estão surfando na moda de fazer hackathons. E para estes prestadores de serviço, não vale a pena perder tempo discutindo com os advogados de seus clientes.

MOTIVO 6: a imagem da sua empresa vale mais que isso.

E, por último mas não menos importante, você vai denegrir sua imagem.

A comunidade não vê isso com bons olhos. E isso fará sua empresa receber críticas quando poderia estar recebendo elogios. Isso ser justo ou não é uma discussão sem fim, mas é um ponto que você deveria levar em conta. Você faz algo que acha que vai trazer uma imagem de uma empresa moderna e um dos maiores blogs de tecnologia solta um post chamado “Empresa tal realiza seu primeiro Hackathon, com pegadinha.”

Como você acredita que fica a imagem da faculdade de tecnologia que realiza hackathons para empresas com seus estudantes e obriga a liberar todos os direitos para estas empresas sem ter um retorno a altura?

E vamos supor que sua empresa resolva levar esta ideia a frente. Você imaginou sua empresa sendo processada por um grupo de estudantes? E se o produto for um sucesso e sua empresa fizer milhões. Quem você acha que será o mocinho e o bandido desta história? Pense no volume de dinheiro que sua empresa investiu em marketing na última década e faça as contas.

Acredite, não vale a pena. Eu sei a preguiça que dá convencer o o time de legal da sua empresa. Mas é melhor você liberar o IP.

Agora, se o seu grande objetivo é ter inovação de forma barata. Faça um acordo no regulamento que seja justo. Acredite, ainda assim será barato, muito barato. E existem muitas maneiras de fazer isso, basta ter criatividade.